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sábado, 1 de março de 2014

CRÓNICA DE UMA RESIGNAÇÃO ANUNCIADA

Luis Cardoso de Noronha - Escritor Timorense
Quando Xanana Gusmão colocou a hipótese de resignar ao cargo de primeiro-ministro, houve quem tivesse levantado dúvidas sobre as suas reais pretensões. Provavelmente por se lembrar que anteriormente, já havia feito outra declaração em que afirmara pretender deixar a política activa, para se dedicar ao cultivo de abóboras. 

As palavras devem ser lidas tendo em conta o contexto em que foram ditas. As primeiras declarações foram proferidas quando ainda era Presidente da República. Na altura em que andava às avessas com Mari Alkatiri que chefiava o governo da FRETILIN. Acredito que teria proferido essas palavras para mostrar o seu estado de alma, por causa do papel que lhe era reservado pela Constituição, que não lhe permitia interferir na governação do país. Hoje as condições políticas são outras. Depois de um período turbulento, ambos decidiram tratar os assuntos de estado em mútua colaboração. Assim o exige a defesa da soberania nacional num momento de tensão com o colosso vizinho. Depois da descoberta que o governo australiano teria feito espionagem colocando os telefones dos dirigentes timorenses sob escuta. E não era nenhum filme nem teoria conspirativa. Os agentes ainda tiveram o desplante de invadir o escritório do advogado australiano que defende os interesses timorenses no tribunal internacional, subtraindo documentos e com a apreensão de passaporte. O orçamento de estado foi votado por unanimidade no Parlamento Nacional, deixando antever um período de estabilidade. Um estado de graça que muitos receiam perder com a sua saída. 

Na apresentação do seu livro em Lisboa, reiterou a sua intenção de deixar o governo depois da reunião magna da CPLP, que se realizará em Díli brevemente. D. Ximenes Belo, um dos apresentadores, pediu que o fizesse só depois de concluído o mandato. Respondeu que estava na altura da geração de 74/75 passar as responsabilidades governativas a outra geração, enquanto os protagonistas ainda estão na plena posse de todas as suas capacidades. Deviam retirar-se para os bastidores.

A questão dos bastidores preocupa o jurista Mari Alkatiri, face a uma proposta da formação de um conselho de anciãos. Como incluir na Constituição os deveres e as responsabilidades dessa entidade, para que tudo funcione dentro da Lei? Qual é o perfil das personalidades para integrar o conselho? O meu amigo Lucas Santiago acha que a primeira condição para alguém pertencer a um conselho de anciãos é ter a barba branca. Xanana e Mari preenchem esse requisito. Ramos Horta também. Lembro-lhe que em Timor-Leste há anciãos que fazem a barba todos os dias e esta condição afasta as mulheres do conselho. 

Faça ou não a barba, a iminência da saída de Xanana Gusmão da cena política deixa muitos com a barba de molho. Assola-os uma outra dúvida. Quem o irá substituir? Sendo certo que aquele que irá sentar-se no seu lugar, o fará transitoriamente. Depois, terá de ganhar a sua própria legitimidade nas próximas eleições legislativas. Que irá Xanana Gusmão fazer nos bastidores? Não creio que vá dedicar-se à agricultura. Atrevo-me a fazer-lhe uma sugestão. Que escreva a sua própria biografia. Não deixe essa tarefa em mãos alheias. Tem talento e uma prodigiosa história de vida para contar. A História de Timor-Leste. 

Luís Cardoso 

Em Revista "África 21" Edição de Março

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